Engenharia de contexto: a IA não precisa de um prompt melhor. Precisa entender melhor o negócio

Durante algum tempo, tratamos cada lançamento de modelo de inteligência artificial como se fosse a chegada de um novo funcionário prodígio

Mais inteligente. Mais rápido. Mais contexto. Mais benchmarks vencidos. Aparentemente, faltava descobrir qual deles seria promovido a diretor de marketing.

Eu também acompanho esses lançamentos. Acho fascinante ver o que os modelos conseguem fazer a cada nova geração.

Só que, depois de colocar IA para trabalhar de verdade dentro da operação, comecei a chegar a uma conclusão um pouco menos conveniente para quem vende tokens: o modelo está ficando secundário.

Não porque inteligência deixou de importar. Mas porque colocar o modelo mais sofisticado do mercado em uma empresa sem conhecimento estruturado, regras claras, ferramentas conectadas e processos minimamente organizados é como contratar o melhor arquiteto do mundo e esconder dele onde fica o terreno.

Ele pode ser brilhante, mas vai continuar trabalhando no escuro. Não adianta você colocar um gênio para trabalhar num contexto ruim. 

É aqui que a engenharia de contexto começa a ficar muito mais interessante do que a discussão sobre o “prompt perfeito”.

E, para quem lidera marketing, ela toca em um problema bem menos divertido do que escolher entre Claude, ChatGPT ou Gemini: como transformar IA em produtividade, resultado e eficiência sem simplesmente acrescentar mais uma linha ao orçamento de tecnologia?

A IA é probabilística. Sua operação, espero, não 

Antes de falar de engenharia de contexto, existe uma distinção importante. Boa parte da empresa funciona de maneira determinística.

Se determinada condição acontece no RD Station, uma automação executa uma ação. Um ERP calcula segundo regras definidas. Uma integração leva uma informação do sistema A para o sistema B.

Dois mais dois continua sendo quatro, o que é reconfortante em um mundo no qual já temos reuniões suficientes para discutir coisas menos objetivas.

Modelos generativos funcionam de outra forma.

Um LLM produz respostas a partir de probabilidades. É justamente essa natureza que permite interpretar linguagem, criar hipóteses, escrever, sintetizar informações e navegar por problemas nos quais não existe uma única resposta correta.

Isso é fantástico para marketing. Também é um péssimo motivo para colocar IA em absolutamente todas as etapas da operação.

Se eu já sei que determinado lead precisa ser movido para uma etapa específica quando uma condição acontece, por que pagar um modelo para “pensar” sobre isso toda vez?

Se existe uma regra objetiva para nomear um arquivo, calcular um indicador ou transferir um dado, por que transformar isso em uma tarefa probabilística?

Usar IA para adivinhar uma regra que a empresa já conhece não é inovação. É uma automação mais cara e menos previsível.

E ainda corremos o risco de colocar isso num slide com o título “AI Transformation”.

Lauro Becker
Quanto mais probabilística for a inteligência, mais determinístico precisa ser todo o resto do sistema com que a gente trabalha.
Lauro Becker
COO da Orgânica

Essa talvez seja uma das ideias mais úteis para quem está tentando escalar IA no marketing.

Não se trata de escolher entre automação tradicional e inteligência artificial, mas de colocar cada uma no lugar em que faz mais sentido.

Regra continua sendo regra. Cálculo crítico pode ir para uma ferramenta determinística. Integração continua sendo integração.

E a IA entra onde realmente precisamos de interpretação, julgamento, linguagem, reconhecimento de padrões ou tomada de decisão diante de informação incompleta.

Parece óbvio. Boa arquitetura costuma parecer óbvia depois que alguém explica.

O que é engenharia de contexto?

A Anthropic define engenharia de contexto como o conjunto de estratégias utilizadas para selecionar e manter o conjunto ideal de informações disponíveis ao modelo durante uma tarefa

Isso inclui muito mais do que o texto escrito pelo usuário: histórico, dados recuperados, ferramentas, memória, instruções do sistema e resultados de interações anteriores também podem compor esse contexto.

A ideia parece técnica e, em aplicações mais complexas, realmente é. Mas o princípio é fácil de entender: uma inteligência artificial não consegue usar uma informação que nunca recebeu e também pode se perder quando recebe informação demais.

O próprio material técnico da OpenAI sobre gerenciamento de contexto chama atenção para esse equilíbrio: carregar contexto em excesso pode gerar distração e ineficiência; preservar pouco demais faz o sistema perder coerência.

É por isso que engenharia de contexto não significa despejar a pasta inteira da empresa em uma ferramenta e esperar que alguma forma de sabedoria corporativa emerja de lá.

Se fosse assim, organizar o SharePoint já teria resolvido metade dos problemas estratégicos das empresas.

Engenharia de contexto é diferente de engenharia de prompt?

Sim, mas uma não elimina a outra.

A engenharia de prompt trabalha principalmente na formulação das instruções e dos exemplos fornecidos ao modelo. O Google define prompt engineering justamente como o uso de instruções e exemplos no prompt para orientar as respostas de um LLM sem modificar seus parâmetros.

A engenharia de contexto amplia esse raciocínio. Em vez de perguntar apenas “como escrever a instrução?”, começamos a perguntar “que informações precisam estar disponíveis quando essa instrução for executada?”.

Pense em uma solicitação relativamente simples:

Crie uma campanha para divulgar nosso novo produto.

Podemos melhorar bastante esse prompt para inteligência artificial adicionando público, objetivo, canal e tom de voz. 

Mas ainda podemos entregar à IA informações sobre posicionamento, histórico de campanhas, desempenho dos criativos anteriores, características do produto, concorrentes, restrições jurídicas, feedback de clientes e exemplos aprovados pela marca.

A instrução continua existindo. Só deixou de carregar a responsabilidade de explicar a empresa inteira em 700 palavras.

Talvez você não precise do modelo mais inteligente. Desculpe estragar a festa

Existe uma espécie de ansiedade coletiva em torno dos modelos.

Sai uma nova versão e imediatamente aparecem as comparações: raciocina melhor, programa melhor, tem uma janela maior, vence aquele benchmark cujo nome ninguém lembrava até ontem.

Isso tudo importa. Mas uma liderança de marketing deveria estar fazendo outra pergunta: eu realmente preciso dessa capacidade para esta tarefa?

Não montamos empresas apenas com pessoas de QI 200.

Além de pouco realista, tenho minhas dúvidas sobre a qualidade das reuniões.

Há trabalhos que exigem muito repertório, capacidade analítica e julgamento. Outros exigem simplesmente que um processo conhecido seja executado bem.

Com IA acontece a mesma coisa.

Usar um modelo sofisticado para mover informações, seguir regras triviais ou reconstruir repetidamente conhecimentos que já poderiam estar documentados é uma maneira extremamente moderna de desperdiçar dinheiro.

O problema é que boa parte da narrativa de adoção ainda coloca o consumo de IA quase como sinônimo de maturidade.

Quanto mais IA, melhor. Quanto mais tokens, mais produtividade.

Curiosamente, essa tese é bastante simpática aos balanços das empresas que vendem tokens.

Para quem precisa defender orçamento para a diretoria, eu usaria uma régua diferente: quanto resultado adicional conseguimos gerar para cada unidade de inteligência que compramos?

É uma conversa muito menos glamourosa. Também é aquela que provavelmente vai sobreviver quando o CFO entrar na sala.

O prompt perfeito virou uma espécie de lenda corporativa

Eu entendo o fascínio. É muito confortável imaginar que existe uma fórmula capaz de produzir respostas excelentes sempre que copiamos uma sequência específica de comandos.

“Use esse prompt com 12 etapas e transforme qualquer IA em um diretor de Marketing.”

Seria ótimo. Também economizaria bastante folha de pagamento.

O problema é que empresas não são contextos estáticos. Campanhas mudam, preços mudam, prioridades mudam, públicos respondem de maneiras diferentes e dados de performance alteram nossas decisões.

É justamente por isso que a engenharia de contexto passou a ganhar tanta relevância junto aos agentes de inteligência artificial.

Não estamos mais falando apenas de uma pessoa colando um prompt em uma caixa de texto.

Estamos falando de sistemas capazes de buscar informações, acessar ferramentas, consultar memória, escolher dados relevantes e atualizar seu estado durante o trabalho.

Conhecimento: a empresa já pagou por ele. Talvez seja uma boa ideia não desperdiçá-lo

Cada empresa acumula conhecimento durante anos. Campanhas. Erros. Testes. Reuniões. Análises. Pesquisas. Conversas com clientes. Negociações comerciais. Decisões estratégicas.

O curioso é que tratamos boa parte disso como subproduto do trabalho.

Terminamos uma campanha, apresentamos os números, fazemos uma reunião, alguém comenta três aprendizados excelentes e seguimos para a próxima.

Seis meses depois, uma pessoa diferente toma uma decisão parecida sem saber que a organização já tinha aprendido aquilo.

Essa ineficiência sempre existiu. Com IA, ela começa a ficar mais cara de ignorar.

Uma operação bem construída deveria fazer com que cada execução deixasse contexto para a próxima.

Se determinado argumento converteu melhor, isso vira conhecimento. Se uma campanha atraiu muitos leads e nenhum pipeline, isso vira conhecimento.

Se vendas identifica uma objeção recorrente, isso vira conhecimento.

Se determinada abordagem foi barrada pelo jurídico cinco vezes, talvez possamos finalmente parar de descobri-la pela sexta.

Esse é o tipo de documentação que deixa de ser burocracia e começa a funcionar como ativo de produtividade.

Guilherme de Bortoli
Qual é a sua proposta única de valor? Isso deve estar disponível para quem vai pilotar os prompts do ChatGPT, senão aquele prompt vai trazer o conteúdo ideal para qualquer empresa, de forma genérica, não para a sua. Tendo clareza de diferenciais e benefícios, pontos de prova, a personalidade e o posicionamento único de mercado… aí sim esse conteúdo tende a ser bom e a gerar resultados.
Guilherme de Bortoli
Cofundador da Orgânica

Harness: quando o chat deixa de ser brinquedo e começa a virar ambiente de trabalho

O nome “harness” é pouco amigável. Tecnologia tem esse talento. Mas a ideia é importante.

Um harness é, de maneira simplificada, a camada na qual um agente consegue trabalhar utilizando modelos, arquivos, ferramentas, integrações e conhecimento.

Pense em ambientes como Claude Code ou Codex. O modelo é uma parte.

Ao redor dele existem arquivos, instruções, ferramentas, APIs, sistemas, regras e mecanismos que permitem realmente executar trabalho.

A própria OpenAI descreveu em 2026 sua abordagem de harness engineering destacando que gerenciamento de contexto é um dos maiores desafios de agentes trabalhando em tarefas grandes e complexas, e que despejar um manual gigantesco no modelo não resolve. 

Contexto é recurso escasso. Quando tudo é importante, nada é importante.

Agora tire esse conceito do desenvolvimento de software e coloque no marketing.

Imagine um ambiente que consiga consultar CRM, RD Station, analytics, mídia, atas do Google Meet, documentação interna e histórico de campanhas.

O analista não precisa abrir sete abas, exportar três CSVs, copiar duas colunas e fazer uma pequena peregrinação digital antes de começar a pensar. A máquina faz o trabalho mecânico.

A pessoa trabalha no problema. Esse deveria ser o objetivo da IA. Não produzir mais atividades para administrarmos.

Que contexto uma IA precisa ter para ajudar o marketing?

Eu separaria esse contexto em algumas camadas. Não porque exista uma fórmula universal, mas porque essa divisão ajuda a perceber o que costuma faltar.

Contexto de marca

Como a empresa se posiciona? Que ideias defende? Qual linguagem utiliza? Quais expressões evita? Como quer ser percebida e que referências representam bem essa identidade?

Para inteligência artificial para criação de conteúdo, isso é muito mais relevante do que simplesmente dizer “escreva com um tom profissional e descontraído”.

Profissional e descontraído descreve metade da internet.

Contexto de público

Quem queremos influenciar, o que essa pessoa já sabe, qual problema está enfrentando e que decisão precisa tomar?

Aqui entram pesquisas, comportamento, segmentos, conversas com clientes, dúvidas recorrentes e objeções. Quanto mais específico é o contexto, menos a IA precisa preencher os vazios com probabilidades genéricas.

Contexto de performance

Quais campanhas funcionaram? Quais mensagens converteram? Que conteúdo trouxe o público errado? Que criativo cansou? Quais páginas estão avançando ou perdendo tráfego?

Essa camada é particularmente importante para a lógica de Content+Performance que usamos na Orgânica. A IA não deveria apenas acelerar a próxima execução; os dados da execução anterior deveriam melhorar aquilo que será feito depois.

Contexto operacional

Quais canais estão envolvidos? Quais são as limitações de formato? Existe aprovação jurídica? Há informações obrigatórias? Qual é o orçamento? Que ferramentas podem ser consultadas ou acionadas?

É aqui que automação com inteligência artificial começa a ficar muito mais interessante do que geração de texto isolada.

Contexto temporal

O que é verdade agora?

Uma campanha pode ter sido excelente há seis meses e irrelevante hoje. Um preço mudou. Uma política foi atualizada. Um concorrente lançou algo. Uma promoção terminou ontem.

Contexto também envelhece.

Uma IA extremamente bem informada sobre 2024 continua sendo extremamente bem informada sobre 2024. Mas e os anos seguintes?

Dar mais contexto não significa dar todo o contexto

Essa é uma armadilha importante. A Anthropic recomenda tratar a janela de contexto como um recurso finito e buscar o menor conjunto de informações com alta relevância para a tarefa

Quanto mais contexto irrelevante é adicionado, maior a disputa pela atenção do modelo.

É importante separar armazenamento daquilo que efetivamente precisa ser colocado diante do modelo e selecionar dinamicamente as informações relevantes.

Então uma boa engenharia de contexto não responde: “Como colocar tudo dentro da IA?”

Ela responde:

“Como fazer a informação certa chegar quando ela é necessária?”

Isso exige curadoria.

E talvez seja justamente essa uma das ironias da era da abundância informacional: acumulamos mais dados do que nunca e agora precisamos ficar realmente bons em decidir o que não mostrar para a máquina.

Capa de livro com radar verde e o texto: Marketing de Conteúdo: os segredos para atrair, engajar e transformar sua Audiência em Clientes

A inteligência artificial generativa começa a ficar interessante quando conhece a operação

Até aqui, grande parte do uso corporativo de inteligência artificial generativa ainda pode acontecer no nível individual: resumir uma reunião, escrever uma primeira versão, organizar dados, gerar uma imagem ou criar ideias.

Esses ganhos são reais. Só não representam o limite da tecnologia.

O movimento mais relevante é a incorporação da IA aos processos. A pesquisa State of AI da McKinsey de 2025 aponta que os ganhos de receita associados ao uso de IA aparecem com maior frequência justamente em marketing e vendas, além de estratégia, finanças e desenvolvimento de produtos.

Ao mesmo tempo, agentes estão entrando na discussão. O Work Trend Index da Microsoft mostrou que líderes esperam que suas equipes passem a redesenhar processos com IA, treinar e gerenciar agentes e construir sistemas multiagentes nos próximos anos.

É nesse cenário que engenharia de contexto deixa de parecer apenas um termo para desenvolvedores.

Se um agente precisa analisar campanhas, produzir variações, consultar dados ou apoiar decisões, precisamos decidir quais informações ele pode acessar, quais deve priorizar, o que precisa lembrar e quando deve recorrer a uma pessoa.

Não é só um problema de tecnologia, mas desenho de operação.

O contexto também define o que não deveríamos terceirizar para a IA

Existe outra consequência interessante. Quanto melhor entendemos quais informações alimentam uma IA, mais fácil fica enxergar onde está o verdadeiro diferencial da empresa.

Dados próprios. Experiência acumulada. Relações com clientes. Repertório cultural. Conhecimento técnico. Decisões anteriores. Visão de mercado.

A Orgânica vem discutindo algo próximo disso quando fala das Unpromptable Ideas: a abundância de produção por IA aumenta o valor da experiência e da inteligência humana que não podem ser reconstruídas apenas pedindo “mais cinco opções”.

A engenharia de contexto não elimina esse pensamento humano. Ela faz justamente o contrário: cria uma maneira melhor de colocar esse repertório à disposição da tecnologia.

Talvez esse seja o ponto que algumas empresas estejam perdendo enquanto procuram o próximo modelo mais poderoso.

Um modelo melhor pode melhorar a resposta. Um negócio que sabe transformar seu próprio conhecimento em contexto cria uma vantagem muito mais difícil de copiar.

Engenharia de contexto é o próximo passo para quem já passou da fase do prompt

Não precisamos decretar a morte da engenharia de prompt. A Internet já enterra profissões e conceitos em frequência suficiente sem a minha ajuda.

Prompts continuam importantes. Mas, quando a IA passa de ferramenta individual para infraestrutura da operação, a qualidade deixa de depender apenas de como alguém formula uma pergunta. 

Passa a depender da informação, da memória, das ferramentas, dos dados e das regras disponíveis no momento em que o trabalho acontece.

Essa é a mudança trazida pela engenharia de contexto.

E ela tem uma consequência direta para o marketing: antes de pedir que a IA conheça melhor seu cliente, produza melhor conteúdo ou tome decisões mais inteligentes, precisamos organizar aquilo que nós mesmos sabemos sobre clientes, marca, performance e negócio.

Caso contrário, podemos trocar de modelo, ferramenta e LLM de inteligência artificial quantas vezes quisermos.

Continuaremos oferecendo contexto genérico e recebendo inteligência genérica de volta.

Se sua empresa já está usando IA, mas quer conectar tecnologia, dados, conteúdo e performance de uma forma mais estratégica, converse com a Orgânica sobre como levar essa inteligência para a operação.

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